Marcus
Alberto De Mario
Rio de Janeiro - RJ
Temos visto Centros Espíritas insistirem em se colocar numa
atuação intra-muros, desvinculados até mesmo da rua em que se localizam,
completamente alheios à comunidade que os envolve. Erro fatal para divulgação
da própria Doutrina Espírita, que dirá para o esclarecimento do ser humano!
Sendo o Centro Espírita uma estrutura social humana, embora
com ascendente espiritual, insere-se que ele faça parte – e o faz – da
sociedade dos homens. Está, portanto, na dinâmica de relacionamento dos seres
que vivem em coletividade. Se assim não fosse, seu isolamento o igrejificaria,
tornando-o apenas um ponto de convergência religioso que, historicamente, já
sacrificou diversas religiões que transcende o aspecto meramente religioso, e
que ele deve ser entendido como um doutrina, um conjunto de princípios
norteadores da vida. Sua base filosófica é mesmo sua força, mas que não se
perde no labirinto confuso dos sofismas, porque tem por razão a pesquisa
científica. Acreditamos na reencarnação pela lógica, pelo bom-senso e pelos
fatos comprovados. E a religião, que deve esclarecer o homem quanto à sua
origem, destinação e ligação com Deus, no Espiritismo ganha vida prática,
porque entranha-se no dia-a-dia do cotidiano humano. Só compreendemos a
paternidade divina se a vivenciarmos em nós e para os outros.
O isolamento é sempre um mal que devemos combater. Ninguém
se forma em medicina pelo simples fato de cursar teoria médica na universidade.
E a prática? O mesmo raciocínio devemos aplicar no Espiritismo. Não basta
freqüentar um Centro Espírita para tornar-se Espírita. É preciso aprender na
teoria e vivenciar na prática. Essa conjugação deve ser propiciada pelo Centro
Espírita dentro de sua organização e também para fora desta.
O Centro Espírita que se isola da sociedade não
participando das problemáticas desta, tende a se distanciar dos interesses da
mesma, pois não estará colocando o Espiritismo ao nível das aspirações humanas.
São de dois tipos a forma de participação na sociedade:
interior e exterior.
Comecemos pela forma interior.
A programação de estudo doutrinário do Centro Espírita não
pode obedecer a padrões rígidos, inflexíveis e mesmo cegos, de abordagem das
obras da Codificação. "O Livro dos Espíritos" é dinâmico e contém
temas que se prestam à análise das vicissitudes do homem na Terra. Sua leitura
deve ser feita com duplo interesse: conhecer o Espiritismo e esclarecer o homem
quanto ao uso que faz de sua potencialidade intelectual e moral. Em outras
palavras: o estudo das obras da Codificação deve estar associado à discussão
dos temas cotidianos da vida, para que o freqüentador do Centro Espírita saiba
colocar em prática a doutrina que aprende. É por isso que Kardec se preocupou
em agrupar perguntas e respostas por temas, e nos coloca tanto diante do
"aborto" quanto do "conhece-te a ti mesmo". Preparar o
homem para bem viver na sociedade é tarefa do núcleo espírita.
Exteriormente temos a ação espírita nos setores da
assistência social, do evangelho no lar, da aplicação domiciliar do passe, da
utilização das artes e mesmo das realizações beneficentes para angariação de
fundo financeiro. Todas essas demonstrações da prática espírita envolvem o
elemento social. São feitas com a participação do homem no seio da sociedade.
Destinam-se a estar com ele no que ele é, onde está e com suas necessidades
imediatas. As atividades externas do Centro Espírita devem se adequar ao
público que irá atingir, o que requer planejamento, organização e trabalhadores
conscientes, o que só poderá ocorrer se estes forem bem assistidos no interior
do Centro Espírita.
Quando visitamos alguém para aplicação do passe ou pequena
leitura evangélica, estamos colocando em prática, vivenciando, o aprendizado
espírita que o Centro nos forneceu. Estamos agindo na sociedade e sendo
porta-voz do Espiritismo através da ação mais contundente que existe: o próprio
exemplo. Nossa conduta, muito além que nossas palavras, dirá da nossa convicção
e retratará a doutrina e a instituição que representa.
O Centro Espírita não é uma igreja parada no tempo. É um
lar/escola dinâmico que visa carinho e afeto, estudo e trabalho, sempre
preocupado em colocar o Espiritismo ao alcance de seus freqüentadores e
respondendo às dúvidas e observações as mais diversas, tendo por base a
codificação kardeciana. Não lhe cabe agir como instrumento político, mas
cabe-lhe fazer a política da educação espiritual das almas que lhe comungam os
ideais.
Temos visto Centros Espíritas insistirem em se colocar numa
atuação intra-muros, desvinculados até mesmo da rua em que se localizam,
completamente alheios à comunidade que os envolve. Erro fatal para divulgação
da própria Doutrina Espírita, que dirá para o esclarecimento do ser humano!
As reuniões públicas de estudo, como o nome já indica, são
feitas para a população, para todos os interessados, seja qual for o motivo que
os levou ao Centro, pois procuram o Espiritismo e devem ser atendidos.
Entretanto, como pode o público acorrer ao Centro Espírita se não é informado
do que neste acontece?
Uma placa na entrada com os dias e horários das atividades.
Uma recepção com distribuição de mensagens avulsas, jornais e revistas
espíritas, além de prestar todas as informações aos visitantes. Um boletim
informativo que possa ser distribuído gratuitamente. Um cartaz nas associações
de moradores da localidade. Pequenos exemplos de serviços que podem ser
executados para a boa integração do Centro Espírita na sociedade, além de outro
serviço muito importante: o exemplo, o ir em socorro ao próximo, não esperando
apenas que este venha à procura.
A falta de renovação dos trabalhadores do Centro Espírita,
quando não ocasionada por distorções administrativas, pode ter sua origem no
isolacionismo em que se acomoda o núcleo representante da Doutrina, fazendo um
Espiritismo fechado em quatro paredes.
Que um grupo familiar não se renove é compreensível, afinal
trata-se de um grupo restrito e de caráter domiciliar, mas um Centro Espírita
deve obedecer a uma organização ativa e participativa, integrada no conhecimento
e solução dos problemas sociais, mesmo que para isso o trabalho tenha de ser de
longo curso, até a conscientização dos que freqüentam as atividades realizadas
em seu interior.
A todo freqüentador deve ser mostrada a diferença existente
entre ele e um trabalhador, pois sentar e ouvir uma palestra e depois tomar o
passe, sem nenhum vínculo de responsabilidade, não o pode categorizar como um
trabalhador sincero do Centro Espírita, que dedica seu tempo, voluntariamente,
para a causa que abraça. Para isso, deve o Centro Espírita permitir a
participação de todos os que o procuram, nos diversos serviços existentes,
dando a cada um segundo o seu conhecimento e experiência.
Assim temos que a integração do Centro Espírita na
sociedade é inevitável e inadiável.
Se o Espiritismo existisse apenas para os desencarnados, o
Centro Espírita não teria razão de existir, pois é de todos os tempos sabido
que o intercâmbio mediúnico não é privilégio de ninguém, podendo ser praticado
em qualquer lugar, embora reconheçamos que o Centro Espírita é o local melhor
indicado, pela seriedade, reconhecimento e estudo que o caracteriza.
O Espiritismo está no mundo para interagir como todo o
conhecimento humano, e o Centro Espírita existe para conviver com toda a
sociedade humana.
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